O ex-governador e novamente candidato ao governo do Estado Marconi Perillo (PSDB) adotou uma estratégia, no mínimo, arriscada para tentar reconquistar o eleitorado goiano, que não o elege para cargo algum desde 2014. Nos últimos dias, passou a divulgar nas redes sociais conteúdos com ataques à segurança pública da atual gestão, construída por Ronaldo Caiado (PSD) Daniel Vilela (MDB), governador e candidato à reeleição. O problema é que o tucano escolheu justamente uma das áreas em que o contraste entre os períodos de governo é mais evidente — e os números explicam o porquê.

O Atlas da Violência mostra que Goiás atingiu, em 2024, a menor taxa de homicídios desde 2000: 18,42 mortes por 100 mil habitantes. Ao longo desses 25 anos, a curva dos crimes contra a vida teve seu ponto mais alto entre 2012 e 2016, período que coincide com os dois últimos mandatos de Marconi. O pior cenário foi registrado em 2013, quando a taxa chegou a 46,18 homicídios por 100 mil habitantes — 150,7% acima do índice registrado em 2024.

Dados do Observatório de Segurança Pública mostram uma diferença gritante em outros indicadores criminais quando comparados os anos de 2018, último da gestão de Marconi, e 2025, período mais recente analisado. Entre os crimes contra o patrimônio, o roubo de veículos despencou 95%: foram 10.105 ocorrências em 2018, contra 508 em 2025. Também houve redução de 97% nos roubos de carga, de 91% nos roubos em comércio, de 92% nos roubos a transeuntes e de 83% nos roubos em residência.

São números que não dependem de discurso político para produzir comparação: mostram uma mudança objetiva no cenário e que é acompanhada da percepção das pessoas. Na mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em julho, a segurança pública da gestão Daniel Vilela é aprovada por 70% da população.

É justamente nesse ponto que a memória do período tucano merece ser recuperada. Foi durante a gestão de Marconi que Goiás enfrentou alguns dos crimes de maior repercussão de sua história recente. Entre eles, o caso do serial killer Tiago Henrique Gomes da Rocha, acusado por quase 40 assassinatos cometidos entre 2011 e 2014. O caso teve repercussão nacional e internacional e expôs, durante meses, a dificuldade da alta cúpula de segurança em identificar o responsável pelos crimes.

Também em 2014, Goiás assistiu a uma das chacinas de maior repercussão no Estado. Seis pessoas foram assassinadas no Bairro Cardoso 2, em Aparecida de Goiânia, durante um ataque cometido por homens encapuzados. O episódio, investigado à época como relacionado ao tráfico de drogas, entrou para a lista de casos que marcaram um período em que a segurança pública estava entre os principais problemas enfrentados pelos goianos.

E talvez esteja aí uma das explicações para a dificuldade de Marconi em reconquistar espaço nas urnas. O ex-governador deixou o Palácio das Esmeraldas com uma marca negativa justamente em uma área que pesa diretamente no cotidiano da população: a segurança.

Em 2018, seu grupo não conseguiu reeleger José Eliton, que havia sucedido Marconi. O tucano também acumulou duas derrotas consecutivas para o Senado, em 2018 e 2022. Agora, retorna ao jogo pelo governo tentando convencer o eleitor de que merece uma nova oportunidade. O problema é que, ao escolher a segurança pública como munição contra a atual gestão, Marconi acaba trazendo de volta à memória do goiano justamente um dos capítulos mais frágeis de sua própria administração.