Depois dos filtros das redes sociais, a inteligência artificial inaugura uma nova fase na relação das pessoas com a própria imagem. Se antes a comparação era com celebridades e influenciadores, agora ela acontece com versões digitais de si mesmas, criadas por algoritmos capazes de eliminar rugas, manchas, flacidez e outras características naturais do envelhecimento.

 

Para o dermatologista Dr. Bones, essa mudança tem alterado a percepção sobre a beleza e levado um número crescente de pessoas a buscar procedimentos estéticos motivados por um padrão praticamente impossível de ser alcançado. A preocupação é que a tecnologia, criada para produzir imagens hiper-realistas, passe a influenciar também a forma como homens e mulheres enxergam o próprio envelhecimento.

 

“O paciente já não chega ao consultório apenas com a foto de uma pessoa famosa. Hoje, muitos apresentam imagens produzidas por inteligência artificial ou versões completamente modificadas do próprio rosto e esperam reproduzir exatamente aquele resultado”, afirma o dermatologista Dr. Bones.

 

Segundo Bones, esse comportamento representa uma evolução da chamada “Síndrome de Snapchat”, fenômeno observado nos últimos anos em que pessoas passaram a preferir a própria imagem editada àquela vista no espelho.

 

“Agora vivemos uma terceira fase. Pela primeira vez, as pessoas não estão se comparando com outras pessoas, mas com uma versão perfeita de si mesmas criada por algoritmos. Essa imagem apresenta pele impecável, simetria absoluta e proporções matematicamente calculadas. O problema é que ela simplesmente não existe na vida real.”

 

A busca por uma perfeição que não existe – Na avaliação do dermatologista, quanto maior a distância entre a imagem criada pela inteligência artificial e a aparência real, maior tende a ser a insatisfação.

 

Isso acontece porque a medicina estética trabalha dentro dos limites da anatomia, da biologia e das características individuais de cada paciente. Embora os procedimentos possam suavizar sinais do envelhecimento e melhorar a qualidade da pele, eles não são capazes de reproduzir com exatidão uma imagem criada digitalmente.

 

“O maior risco é abandonar a busca pela melhor versão de si mesmo para perseguir uma beleza que nunca poderá ser alcançada.”

 

Segundo o especialista, essa expectativa pode desencadear um ciclo contínuo de procedimentos, já que o resultado desejado permanece sempre distante.

 

“A pessoa acredita que falta apenas mais um tratamento para atingir o ideal. Mas esse ideal foi criado por um algoritmo. Com o tempo, o excesso de intervenções pode descaracterizar o rosto, alterar suas proporções naturais e comprometer a harmonia facial.”

 

Além dos impactos estéticos, o dermatologista destaca que a busca por padrões irreais também pode afetar a saúde emocional, favorecendo quadros de ansiedade, baixa autoestima e frustração constante.

 

Rejuvenescer sem perder a identidade – Em contraposição à busca por rostos padronizados, especialistas defendem uma abordagem baseada na naturalidade e na preservação da identidade facial.

 

Para o Dr. Bones, o objetivo da medicina estética não deve ser transformar a aparência, mas acompanhar o envelhecimento de forma saudável, respeitando as características que tornam cada pessoa única.

 

“Cada rosto é resultado da combinação da genética com a história de vida. Rejuvenescer significa estimular a produção de colágeno, melhorar a qualidade da pele, recuperar sustentação e devolver um aspecto saudável. Transformar completamente a anatomia é uma proposta diferente.”

 

Na prática, explica o especialista, um procedimento bem executado é aquele que valoriza a aparência sem apagar a identidade.

 

“O melhor resultado é quando as pessoas percebem que alguém está com aparência saudável e descansada, e não quando perguntam o que aconteceu com o rosto.”

 

Envelhecer bem vai além dos procedimentos – Embora os avanços da dermatologia ofereçam recursos cada vez mais eficazes para tratar os sinais do tempo, especialistas reforçam que o envelhecimento saudável começa muito antes de qualquer intervenção estética.

 

Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono de qualidade, proteção solar diária, boa ingestão de proteínas e nutrientes e hábitos de vida saudáveis continuam sendo as principais estratégias para preservar a saúde da pele e estimular naturalmente a produção de colágeno.

 

Nesse contexto, os procedimentos estéticos devem atuar como aliados, ajudando a retardar alguns efeitos do envelhecimento sem substituir os cuidados com a saúde.

 

“Estamos vivendo uma mudança de paradigma. Durante muitos anos, a estética buscou transformar as pessoas. Hoje, o maior desafio é utilizar a tecnologia para preservar a identidade de cada paciente. A verdadeira beleza não está em parecer uma imagem criada pela inteligência artificial, mas em continuar reconhecendo quem somos, envelhecendo com saúde, naturalidade e dignidade”, conclui o dermatologista.