Durante alguns dias, como tanta gente, fiquei profundamente tocada pelo caso de Isabelle Caracristi. Depois da comoção inicial, porém, outra coisa começou a me inquietar.

Não exatamente o que aconteceu no último instante — sobre isso talvez nunca saibamos o suficiente e seria irresponsável pretender decifrar a intimidade psíquica de quem já não pode falar por si.

Minha pergunta é anterior.

Como alguém percebe que uma relação lhe faz mal, reconhece contradições, identifica mentiras, verbaliza sua infelicidade, escuta os alertas de quem a ama — e, ainda assim, volta?

Essa talvez seja uma das perguntas mais desconcertantes que a psicanálise nos deixou.

Porque fomos educados para acreditar que saber é suficiente.

Se sabemos que algo nos prejudica, afastamo-nos. Se percebemos o perigo, evitamo-lo. Se alguém nos demonstra que estamos vivendo uma relação destrutiva, basta compreender os fatos para tomar a decisão correta.

Mas o psiquismo humano não funciona assim.

Freud descobriu muito cedo que o homem não é inteiramente governado pelo princípio racional da autopreservação. Há em nós repetições que desafiam a lógica consciente. Voltamos a situações que nos fizeram sofrer. Recriamos vínculos que juramos não querer mais. Procuramos novamente aquilo de que, poucas horas antes, dizíamos desejar fugir.

Foi tentando compreender esse paradoxo que Freud chegou à ideia da compulsão à repetição.

Não se trata de dizer que alguém “quer sofrer”. Muito menos que seja responsável pela violência, pela manipulação ou pelo sofrimento que lhe sejam impostos por outra pessoa. Essa seria uma vulgarização cruel da psicanálise.

Trata-se de reconhecer algo muito mais perturbador: podemos saber e, ainda assim, não conseguir.

Há uma distância entre consciência e desejo.

É nessa distância que o inconsciente trabalha.

Lacan levaria essa constatação ainda mais longe. O sujeito não é senhor absoluto das razões pelas quais ama, deseja, insiste, permanece ou retorna. Há vínculos que ocupam lugares em nossa economia psíquica que não podem ser desfeitos simplesmente por um argumento racional.

Por isso uma mãe pode dizer: “Esse relacionamento não lhe faz bem”.

Uma amiga pode dizer: “Saia daí”.

A própria pessoa pode dizer: “Eu sei”.

E voltar.

Talvez seja justamente esse “eu sei” que mais devesse nos inquietar.

Porque, quando alguém permanece em uma relação dolorosa, nossa primeira reação costuma ser oferecer mais realidade: mostrar mensagens, enumerar mentiras, recordar episódios, reunir provas.

Como se faltasse informação.

Às vezes não falta.

A pessoa já sabe.

O que falta é conseguir transformar esse saber em separação.

E aqui existe uma lição importante para pais e mães, especialmente de adolescentes e jovens adultos. Amar alguém não nos dá domínio sobre seu desejo. Podemos advertir, acolher, mostrar aquilo que enxergamos de fora. Podemos — e devemos — permanecer disponíveis.

Mas não podemos desejar pelo outro.

Talvez por isso certas frases sejam tão inúteis diante do sofrimento: “Eu te avisei”; “Você sabia”; “Por que voltou?”; “Como você não percebeu?”.

Ela talvez tenha percebido.

Essa é precisamente a questão.

Não sabemos o que aconteceu dentro de Isabelle naquele último instante. Não sabemos tudo o que aconteceu antes dele. E uma história humana jamais deveria ser reduzida a fragmentos de mensagens, imagens, depoimentos ou às certezas produzidas retrospectivamente por quem observa de fora.

A psicanálise, quando levada a sério, ensina também humildade.

Ela não nos autoriza a diagnosticar uma jovem que morreu. Não nos permite atribuir uma causa simples a um gesto extremo. E muito menos transforma sofrimento em culpa.

Mas talvez nos permita formular uma pergunta que sobreviva ao caso.

Quantas pessoas ao nosso redor sabem que estão sofrendo e, ainda assim, não conseguem partir?

Quantas dizem “está tudo bem” depois de terem acabado de dizer exatamente o contrário?

Quantas voltam não porque desconheçam aquilo que as espera, mas porque alguma coisa naquele vínculo ainda as captura?

Talvez precisemos aprender a escutar essas contradições sem julgamento.

Sobretudo quando aparecem nos jovens.

Nem sempre a pergunta mais importante é: “Você não está vendo o que está acontecendo?”

Às vezes é outra:

“Se você já está vendo, o que está tornando tão difícil ir embora?”

Entre saber que um laço nos destrói e conseguir abandoná-lo existe, às vezes, um abismo.

É nesse abismo — antes que ele se torne intransponível — que precisamos aprender a escutar.