Há deslocamentos que não se anunciam em números. Eles aparecem depois, no ritmo cotidiano de quem atravessa fronteiras em busca de estabilidade e tenta reorganizar a vida em outro país, longe do que ficou para trás. Levantamentos do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) indicam que o Brasil já ultrapassa a marca de 2 milhões de imigrantes e solicitantes em diferentes categorias migratórias, se consolidando como um dos principais destinos da América Latina.
Já o Painel de Refúgio do Ministério da Justiça e Segurança Pública (CONARE) aponta que, em 2025, o país manteve um volume elevado de solicitações, com a participação crescente de cubanos em diferentes recortes do sistema, sinalizando uma mudança gradual no perfil migratório recente.
Em Goiânia, esse movimento se soma a um contexto regional mais amplo: dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de levantamentos do Observatório Estadual de Migração indicam cerca de 19,7 mil imigrantes estrangeiros em Goiás, enquanto a capital reúne aproximadamente 4,2 mil residentes nascidos fora do Brasil.
É nesse cenário que trabalhadores cubanos passam a integrar a rotina de diferentes atividades na capital, sobretudo no setor de serviços, onde a chegada de estrangeiros se tornou mais visível nos últimos anos.
Entre essas trajetórias está a do cubano Luis Enrique Regueiferos Nieves, natural de Havana, que vive no Brasil há cerca de um ano e meio. Formado em medicina veterinária, ele atua na área de alimentação no hotel Ibis Styles Goiânia do Shopping Estação, na capital. A decisão de deixar Cuba, segundo ele, foi resultado de dificuldades acumuladas ao longo do tempo.
“Em Cuba, viver com dignidade é um desafio constante. Falta acesso a medicamentos e há instabilidade no dia a dia”, afirma. No Brasil, a experiência representa um recomeço ainda em construção: “Aqui encontrei estabilidade. Ter trabalho e moradia já é uma conquista importante”, diz.
Também de Havana, Yusimí Quezadas Hernández chegou ao Brasil com o marido e duas filhas pequenas após viver um cotidiano marcado por instabilidades no país de origem, especialmente relacionadas ao fornecimento de energia elétrica.
“Em Cuba enfrentávamos apagões de até 72 horas, o que afetava toda a rotina da casa e das meninas”, conta. Em Goiânia, ela relata uma adaptação gradual, acompanhada da inserção no mercado de trabalho formal e da reorganização da vida familiar, onde pode viver “com mais tranquilidade e segurança”.
Identificação cultural – A trajetória de adaptação também aparece na experiência de Ámbar Villar Ramirez, natural de Santiago de Cuba, que vive em Goiânia após passagem por outro país antes de se estabelecer definitivamente no Brasil com a família. Ela destaca a proximidade cultural como fator que facilitou o processo de integração.
“A cultura é mais parecida com a nossa e as pessoas são acolhedoras”, afirma. Segundo ela, a formalização do trabalho foi decisiva para permanecer no país: “Aqui temos direitos trabalhistas como qualquer brasileiro.”
Já Zabilly Fuentes Jardon vive em Goiânia com o marido e a filha, enquanto o filho mais velho permanece em Cuba cumprindo serviço militar obrigatório. “Ele ainda precisa terminar o serviço antes de sair do país”, explica.
Apesar da distância, ela afirma que a adaptação foi facilitada por elementos culturais comuns entre os dois países. “A comida e os costumes são muito parecidos”, ressalta.
A gerente do hotel, Marília Oliveira, conta que começou a ser procurada por essa comunidade e abriu espaço em razão da demonstração de interesse do grupo. “Eles se adaptaram muito bem à equipe e à cultura do hotel. São profissionais dedicados, comprometidos e que agregam não só pela qualificação técnica, mas também pela troca cultural e pelo cuidado no atendimento aos hóspedes”, conclui.
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